Artigo publicado em 2003, pela Rev. bras. alerg. Imunopatol Vol. 26, Nº 6, pelos
autores : Ernesto Nascimento Filho; ,
Marcia Mayer; Paulo Pontes; Antonio Pignatari ; Luc Weckx . Revisar a literatura sobre níveis
salivares de Streptococcus mutans,
ocorrência de cárie dental e gengivite
em pacientes respiradores bucais com dentição decídua, mista e permanente.
Introdução
A respiração normal efetua-se
através das fossas nasais, cuja mucosa tem funções de filtragem, aquecimento e
umidificação do ar. A cavidade bucal só
intervém nesse processo quando existe a realização
de esforços físicos ou em qualquer outra situação em que o ar inspirado não
seja suficiente. Quando a inspiração se faz continuamente pela boca, desenvolve-se
um tipo de respiração alterada denominada respiração bucal. Dentre as causas mais frequentes destacam-se: rinites
crônicas, que podem ser alérgica, infecciosa, induzida por drogas, hormonal e
outras, inclusive idiopática; hipertrofia da tonsila faríngea (vegetação ade-nóide),
hipertrofia das tonsilas palatinas,
desvio de septo nasal, macroglossias e massas nasais (pólipos e tumores).
O respirador bucal apresenta
alterações ou deficiências nos mecanismos de defesa dos tecidos orais, mediados
pela saliva, possivelmente resultando em maior risco ao desenvolvimento de doenças bucais,
como cárie e doenças periodontais.
A saliva exerce importante papel
no controle da microbiota oral, pela lavagem mecânica das superfícies dentais e
por suas propriedades antimicrobianas, além de interferir no processo de desmineralização dental, pela
dissolução e tamponamento dos ácidos formados no biofilme dental, e fornecimento
de íons necessários à remineralização.
A cárie pode ser detectada em
populações de baixa faixa etária, logo após o aparecimento dos primeiros
dentes, principalmente em nosso meio, onde o consumo de açúcar é alto e o
estabelecimento de microorganismos cariogênicos como o Streptococcus mutans é mais precoce do que em outros países. Estas bactérias desempenham papel
importante na etiologia da cárie dental, e seus níveis salivares são associados
ao desenvolvimento de lesões de cárie.
A gengivite do respirador bucal é
uma inflamação da gengiva marginal em resposta ao acúmulo de placa ou biofilme
dental, agravada pela exposição ao ar
durante a respiração bucal e tem recebido pouca atenção na literatura
científica.
As gengivites crônicas constituem
o tipo mais comum de condição
inflamatória gengival na in-fância. Segundo Koch et al, a gengivite em crianças aumenta com a
idade. O tipo mais comum de doença gengival
é o simples envolvimento inflamatório, causado pela placa bacteriana aderida à
superfície dentária. Salienta-se que a doença periodontal pode ocorrer em
crianças, adolescentes e adultos, mas sua incidência aumenta com a idade.
Há evidências de prevalência
crescente de gengivite em indivíduos que respiram através da boca e possuem uma
postura labial aberta ou reduzida cobertura dos incisivos pelo lábio superior.
Respiração bucal e gengivite
Lite et AL examinaram clínica e histologicamente a
gengiva de adultos respiradores bucais com gengivite, antes e depois de quatro
a seis semanas de tratamento local, que consistia na remoção de irritações
locais, orientação para uma excelente higiene oral, e uso de gelatina de “petrolatum”
para prevenir desidratação da gengiva. O tratamento criou condições gengivais
normais e saudáveis. A gengivite
original reapareceu rapidamente quando a
gelatina de “petrolatum” foi excluída o que permitiu aos autores concluírem que
a desidratação era a causa principal de irritação gengival nos respiradores
bucais.
Somente em 1965, na Dinamarca,
após estudos de gengivite
experimental no homem, reconheceu-se que
o acúmulo de placa dental era responsável pelo aparecimento da gengivite. A
partir desta descoberta, os autores
começaram a pesquisar a relação entre placa dental e gengivite em pacientes
respiradores bucais.
Sutcliffe não observou relação
entre respiração bucal e prevalência de gengivite em torno dos dentes
anteriores em crianças em idade escolar. Ele documentou maior prevalência de gengivite associada ao grau de separação labial e
correlação entre respiração bucal e a
falta de fechamento dos lábios.
Alexander, em estudo em 200 pacientes
que eram atendidos rotineiramente em um hospital odontológico e em 200
estudantes de odontologia, comparou a frequência da gengivite e placa dentária
em respiradores bucais e nasais. Os respiradores bucais do grupo dos pacientes
tiveram índices de sangramento gengival mais significativos do que os respiradores
nasais, o que não aconteceu com o grupo de estudantes. Segundo o autor, a falta
de correlação entre respiração bucal e gengivite no grupo dos estudantes, em
contraste com o grupo dos pacientes, poderia ser devida à menor idade daqueles
e, consequentemente, ao menor período de
exposição aos efeitos da respiração bucal. Critérios não confiáveis para o diagnóstico
de respiração bucal foram sugeridos como uma possível explicação para os
resultados conflitantes.
Jacobson analisou 55 crianças com
idades entre seis e doze anos, com hipertrofia da tonsila faríngea e as
comparou a 45 crianças saudáveis da mesma idade para verificar a existência de
relação positiva entre respiração bucal e inflamação gengival. Ele utilizou os
índices gengival e de placa, o tamanho da adenóide e os hábitos de respiração
em ambos os grupos. No grupo dos respiradores bucais observou índice de
sangramento gengival mais elevado do que nos respiradores nasais. A principal diferença entre os dois grupos foi
observada na região maxilar anterior.
Assim concluiu que índices elevados de sangramento gengival nos
respiradores bucais eram esperados e sugeriu que a explicação provável para
este fato seria o efeito destrutivo da desidratação.
Para Glickman, a respiração bucal
não afeta a prevalência ou a extensão da gengivite em adultos, exceto em pacientes
com quantidades consideráveis de placa bacteriana. N o entanto, segundo ele, não há relação entre respiração bucal e
prevalência de gengivite, exceto um ligeiro aumento de sua gravidade.
Addy et al avaliaram em um grupo de 1.015 estudantes com idades entre 11,5 e 12,5 anos,
os efeitos da cobertura do lábio superior e profundidade labial, sobre os
índices de placa e de sangramento gengival nos segmentos anteriores. Eles verificaram
que o freio labial curto afetava a retenção da placa e o grau da gengivite. A
não cobertura total do lábio superior aumentava o índice de placa e o
sangramento gengival tanto maxilar quanto mandibular.
Wagaiyu & Ashley avaliaram a
saúde gengival de 201 escolares, com média de idade 152 meses, sendo 65 respiradores bucais e 136
nasais. Eles avaliaram os dentes incisivos e os
primeiros molares superiores na presença ou ausência de sangramento
gengival. O índice de placa, a respiração bucal, o fechamento labial e a
cobertura labial superior foram avaliados. Foram associados a níveis elevados
de placa e inflamação gengival: respiração bucal, separação labial aumentada e cobertura
labial diminuída. Ao final eles concluíram haver associação significativa entre
respiração bucal e linha alta labial que aumentam a suscetibilidade à inflamação
gengival em crianças, em particular no segmento anterior maxilar.
Milanezi et al observaram maior grau de inflamação gengival e
tendência ao maior acúmulo de placa
bacteriana entre os respiradores bucais. Segundo eles, a gengivite do
respirador bucal apresenta
características clínicas definidas, com aumento de volume tecidual de canino a
canino superior e inferior, na região
vestibular, coloração avermelhada, alteração de textura superficial e tendência
ao sangramento. O respirador bucal apresenta
desidratação da gengiva exposta, que juntamente com a falta de fricção do lábio
superior ocasiona a formação de placa e outros depósitos, diminuindo a
resistência tecidual. Assim, concluíram que a severidade da inflamação é dependente
do número de agentes irritantes locais e que a falta de limpeza mecânica é o
fator precípuo ao desenvolvimento da hiperplasia.
Em estudo de revisão, Weckx &
Weckx, relatam que dentre os sinais e sintomas gerais do res-pirador bucal, a
maior exposição da gengiva, como no “sorriso gengival”, favorece o acúmulo de placa
bacteriana e o sangramento gengival. Gulati
et al avaliaram os efeitos da respiração bucal, fechamento dos lábios e a cobertura do
lábio superior na saúde gengival de 240 crianças, entre 10 e 14 anos de idade.
Os dentes examinados foram os incisivos, os primeiros molares permanentes
superiores e inferiores. Essas crianças foram divididas em dois grupos
iniciais: respiradores bucais e respiradores nasais; que foram subdivididos em
seis subgrupos ou categorias com base no fechamento labial e na cobertura
labial dos incisivos superiores. Eles
observaram que a separação labial aumentada e a cobertura reduzida dos incisivos
superiores pelo lábio superior, aumentam a suscetibilidade da inflamação gengival
em crianças. Nos respiradores bucais, o aumento da prevalência de inflamação
gengival foi observado em tecidos
maxilares. Como o grau da incompetência labial aumentou e a cobertura labial
superior diminuiu, a inflamação gengival também aumentou em todos os lugares.
Não houve diferenças estatisticamente significantes entre os respiradores bucais e os nasais com
respeito ao índice de placa.
Outro ponto controverso diz
respeito e que até recentemente não se conhecia, se os efeitos maléficos da
respiração bucal sobre a gengiva se apresentavam já na dentição decídua.
Nascimento Filho avaliou os
efeitos causados pela respiração bucal e
gengivite em crianças respiradoras bucais com idades entre três e cinco anos, que tinham somente dentes decíduos. No exame
clínico foram registrados os índices de placa bacteriana avaliados após sua
coloração com solução evidenciadora “Replak” , e de sangramento gengival , no qual uma sonda periodontal
foi colocada ao longo do sulco gengival de
cada dente, nas faces mesial, distal, vestibular, palatina ou lingual; se o sangramento ocorreu dentro de 10 a 15 segundos, atribuiu-se um
escore positivo. Os índices de placa bacteriana foram semelhantes em crianças respiradoras nasais
e bucais. Entretanto, o índice de sangramento gengival nas crianças respiradoras bucais, por
toda a gengiva foi significantemente maior. Esta diferença deve-se provavelmente
a alterações qualitativas na composição da placa bacteriana nas crianças
respiradoras bucais. Como conclusão deste estudo afirma que medidas preventivas
devem ser priorizadas no grupo de respiradores bucais, mesmo em idade precoce.
Embora Spicer houvesse se referido ao aumento na proporção
de cárie nos respiradores bucais, a relação entre respiração bucal e risco de cárie
só foi pesquisada recentemente.
Koga et al relacionaram a presença de respiração bucal
com a contagem de Streptococcus mutans na saliva. Estes autores avaliaram 30
pacientes respiradores bucais com idades entre seis e onze anos (média 8,2
anos) e 30 crianças que respiravam pelo nariz
de mesma faixa etária (média 8,5 anos). Estes pacientes, tanto os respiradores
bucais quanto os nasais, não apresentavam lesões clinicamente evidentes de
cárie. Amostras de saliva estimulada
foram coletadas e cultivadas em meio seletivo. Observou-se em 70% da amostra de
respiradores bucais e em 43,3% dos controles valores muito altos de Streptococcus mutans considerados indicativos
de alto risco de cárie. Desse modo, eles concluíram que os respiradores bucais apresentam alterações na microbiota bucal que
favorecem o desenvolvimento de microorganismos cariogênicos e o estabelecimento
de placa cariogênica específica. Assim,
estes pacientes estão possivelmente mais suscetíveis à cárie.
Tendo em vista a escassez de trabalhos relati vos à
ocorrência de cárie e o não esclarecimento deste aspecto até recentemente, Nascimento
Filho estudou a relação entre respiração
bucal, contagem de Streptococcus mutans na saliva e a ocorrência de cárie dental . Avaliou 30 crianças com três a cinco anos de idade, respiradoras
bucais (média 56,9 meses) que foram comparadas a 30 crianças respiradoras nasais, na mesma
faixa etária (média 55,7 meses) com 20
dentes erupcionados, sem presença dos primeiros molares permanentes. Estas crianças, tanto as
respiradoras bucais quanto as nasais, clinicamente apresentavam ou não lesões
de cárie. Por meio de uma espátula de madeira estéril foram coletadas amostras
para detecção e quantificação de
Streptococcus mutans na saliva.
Amostras de saliva não estimuladas foram cultivadas em placas contendo meio
seletivo. O diagnóstico de cárie dental foi realizado por inspeção visual, com auxílio de
um espelho clínico. Antes do exame, as crianças tiveram seus dentes
cuidadosamente escovados com escovas
macias e as superfícies proximais limpas com fio dental; e a seguir, secos por meio de
ar comprimido. Foram registradas como
lesão de cá- rie inicial (manchas brancas) as áreas de desmineralização do
esmalte, de coloração branco – opaca e
sem cavitação. Foram consideradas como cavidades de cárie, as lesões cariosas
que apresentavam o mínimo sinal de cavitação, de todas as superfícies dentais.
Não se detectaram diferenças estatisticamente significativas na quantidade de
Streptococcus mutans na saliva das crianças respiradoras bucais e nasais.
Lesões de cárie iniciais mais freqüentes nas crianças respiradoras bucais e,
portanto, a suscetibilidade à cárie é maior neste grupo.
Comentários finais
A gengivite, bem como a periodontite e a cárie são doenças infecciosas,
causadas por bactérias que colonizam a superfície dos dentes, formando a placa dental ou biofilme. O controle da
placa é a medida mais direta e abrangente de controle e prevenção destas
doenças infecciosas.
Todos os trabalhos pesquisados obtiveram índices de placa equivalentes
nos grupos de respiradores nasais e bucais, indicando que a maior prevalência
de gengivite no grupo de respiradores bucais deve-se provavelmente a alterações
qualitativas na placa bacteriana deles e na resposta aos estímulos bacterianos,
induzindo a maior resposta inflamatória.
Na cárie dental, o desequilíbrio é provocado principalmente pelo consumo
freqüente do açu- car; Streptococcus
mutans utilizam o açúcar que fica retido na placa dental e produzem ácidos como
produto final, que desmineralizam a superfície dentária.
A remoção da placa deve ser realizada por meios
mecânicos, pelo paciente com escovação adequada
e uso de fio ou fita dental para limpeza das superfícies interproximais, e
também pelo dentista com limpeza profissional dos dentes. Métodos químicos de
controle de placa como o uso da clorexidina, podem ser utilizados de acordo com
as necessidades individuais. A grande dificuldade é a motivação dos pacientes
e s eus responsáveis no controle da placa para prevenir a ocorrência de cárie
dental e doenças periodontais. O uso de
flúor e controle na freqüência do uso da sacarose são medidas fundamentais na
prevenção e controle da cárie e gengivite e devem ser indicados para esses
grupos de maior risco, como ocorre nos respiradores bucais.









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